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Trágico à força de Anton Tchekhov (adaptação livre)

Trágico à força de Anton Tchekhov (adaptação livre)

Personagens: Aleksieva e Ivanova

(Casa de Aleksieva. Entra Ivanova, carregando mais objetos do que é capaz de carregar. Lança um olhar inexpressivo ao redor e, esgotada, deixa-se cair no sofá)

Aleksieva – Bom dia, Ivanova! Que satisfação a minha! De onde está vindo?

Ivanova (ofegando) – Minha amiga, minha cara… Quero lhe pedir uma coisa. Eu te imploro… Empreste-me um revólver até amanhã. Faça essa gentileza.

Aleksieva – E para que precisa de um revólver?

Ivanova – Preciso… Tenho que atravessar de noite uma floresta tenebrosa. É por isso que eu… para qualquer eventualidade. Empreste-me um, por favor!

Aleksieva – Ai, Ivanova, lá vem você com histórias! Que diabo de floresta tenebrosa é essa? Onde? Na certa, está tramando alguma coisa. E posso ver pela sua cara que coisa boa não é. O que há com você? Está passando mal?

Ivanova – Espere. Deixe-me respirar… Oh, meu Deus! Cansei-me feito um burro. Sinto o corpo inteiro doer como se tivessem feito picadinho de mim. Não aguento mais. Por gentileza, não me pergunte nada, não entre em detalhes. Dê-me o revólver. Eu lhe suplico!

Aleksieva – Já basta! Que desânimo é esse, Ivanova? Uma mãe de família, mulher de respeito! Tome vergonha!

Ivanova – Eu, mãe de família? Sou mártir, isso sim! Um burro de carga, uma escrava, uma patife que ainda espera alguma coisa da vida e não se manda dessa para a melhor! Por que é que eu vivo? (Levanta-se) Me diga, por que é que eu vivo? Para mim chega, chega!

Aleksieva – Pare de gritar, os vizinhos vão ouvir! Fale com calma. Como sua vida pode ir tão mal?

Ivanova – Você ainda pergunta? Pois bem, vou contar. Vou tomar como exemplo só o dia de hoje. Não basta o sufoco que passei em minha visita à repartição, como sempre um corre-corre, de onde você sai arrasada, pronta para preparar o jantar e cair na cama, mas não! Lembre-se de que sou uma veranista, ou seja, uma escrava, um capacho e pronto, toco a correr feito uma aloprada atrás das encomendas. Em nossas casas de veraneio estabeleceu-se um costume encantador: se algum veranista vai à cidade, sem falar na minha própria casa, toda a escória de turistas tem o poder e o direito de impor-lhe uma infinidade de encomendas. Sonitchka precisa trocar os sapatos, minha cunhada quer seda vermelha de 20 copeques, igual à amostra, além de 70 cm de cadarço. Não é só, espere. Agora vou ler a lista para você (tira da bolsa uma lista e lê): Um globo de luz, 1 libra de salsichão, 5 copeques de cravo e canela, óleo de rícino para o Micha, 10 libras de açúcar cristal, 10 copeques de ácido fênico, de pó da Pérsia, de pó de arroz, 20 garrafas de cerveja, essência de vinagre e um espartilho nº 82 para mademoiselle Chansot… Ufa! E pegar em casa o sobretudo e as galochas do Micha.

Aleksieva – Meu Deus, não é para menos que esteja zangada!

Ivanova – Estas são as encomendas da minha família. Agora vêm as encomendas dos adoráveis vizinhos e conhecidos, o diabo que os carregue! Os Vlássin comemoram amanhã o aniversário do Valódia, é preciso comprar um presente. A mulher do tenente-coronel Vikhrin está grávida e por conta disso sou obrigada a passar todos os dias na casa da parteira para chamá-la. Tenho cinco listas na bolsa. No intervalo entre a repartição e o trem, corro como uma louca. Da loja para a farmácia, e de lá para a costureira e de lá para a salsicharia e de lá novamente para a farmácia. Você tropeça aqui, perde dinheiro acolá, no terceiro lugar se esquece de pagar e é perseguida aos berros.

Aleksieva – Depois das encomendas cumpridas e tudo comprado, como fez para empacotar toda essa tralha?

Ivanova – É um quebra-cabeça! Como colocar um globo de luz e as garrafas de cerveja em um único pacote? Na estação e no trem tive que ficar de pé, braços abertos, pernas afastadas, toda coberta de saquinhos, caixas e outras bugigangas. Os passageiros começam a empurrar sua bagagem para todos os lados, pois com suas coisas você está ocupando o lugar deles. Chego à minha casa, preparo o jantar, deito-me na cama e tudo é tão bom, poético e cálido e de repente… de repente… ouço: Zzz! Pernilongos! Um zumbido tão tristonho, mas dão cada picada que depois você passa uma hora se coçando. Acredita que me tornei psicopata? De modo que nos momentos de extrema irritação e tontura, meus olhos ficam turvos e eu saio correndo pela casa e gritando: “Sangue! Tenho sede de sangue!” E com efeito, nessas horas uma pessoa quer mais é dar uma facada em alguém. E ninguém é solidário, como se não pudesse ser de outro jeito. Chegam a rir. Escute, se não vai me dar o revólver, pelo menos sinta pena de mim.

Aleksieva – Estou sentindo.

Ivanova – Bem se vê que você está morrendo de pena. Adeus. Vou atrás ainda de outras encomendas e direto para a estação.

Aleksieva – Onde fica sua casa?

Ivanova – No Riacho Morto.

Aleksieva (toda alegre) – Não me diga! Escute, por acaso não conhece uma veranista de lá, Olga Pavlovna Finberg?

Ivanova – Sim, fomos apresentadas.

Aleksieva – É mesmo? Que coincidência! Minha amiga, não pode me fazer um pequeno favor? Um pedido de amiga! Vamos, dê-me sua palavra que vai atender! Não por obrigação, mas por amizade! Em primeiro lugar, cumprimente Olga por mim! Em segundo… Ela me pediu que comprasse uma máquina de costura portátil, mas não achei quem a levasse… E aproveitando o ensejo, leve também essa gaiola com o canarinho… só tome cuidado, que a portinhola está para quebrar. Por que está me olhando desse jeito?

Ivanova (a raiva rapidamente surgindo e crescendo) – Máquina de costura, canário com gaiola…

Aleksieva – Ivanova, o que deu em você? Por que está vermelha desse jeito?

Ivanova (grita, incrédula) – Me dê a máquina! Onde está a gaiola? Monte em cima de mim, você também!

Aleksieva – Você enlouqueceu!

Ivanova (avança sobre ela) – Sangue! Tenho sede de sangue!

(Ivanova sai correndo atrás de Aleksieva, que grita por socorro. Assim, as duas saem do palco)

– Cortina –

amarte

1 comentário até agora

Seleção de elenco para curso de teatro Amarte 2011 Publicado em6:06 pm - fev 16, 2011

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